domingo, 8 de abril de 2012

protagonista

viu cisne negro fez um
teste no facebook que
filme você é deu cisne
negro todo mundo é cisne negro
os mortos caminhavam e por isso sofriam mar
solas ondas atadas sandálias
teu corpo inteiro um rego de dedo

sábado, 31 de março de 2012

eu passo boa parte do dia doendo
à parte isso, distraio
em todo caso, tomo café, entro no facebook,
trabalho, tomo banho
o dia não dá pra tudo isso
mas o dia cabe nisso
e se eu transbordo ninguém tem nada que ver
fico quieto, faço mais café

faz um tempo que não tenho
o êxtase
de santa teresa arrebatada
que de não caber na tela vira
escultura e de não caber na escultura
voa

puxada pelos olhos
meus olhos mal me puxam
escrevo lamentando
se percebo, nem escrevo
essa geleia de tédio
espalhada pelos passos
o certo era seguir até encontrar
esquecido pela rotação da Terra
um ovo cru de dinossauro
chocá-lo
e dar à luz a vida morta
logo grande, predadora de elefantes
e de homens, arrancando cabeças com os dentes

acho que nesse dinossauro eu não chego
a cada busca mais longe do ovo
asas fósseis sobrevoam este trecho

quinta-feira, 29 de março de 2012

um cachorro não se preocupa se vai viver pra sempre / até quando um cachorro vive / até o momento em que deixa de ser cachorro, sem saber que é cachorro, sem saber que é

eu não

eu penso assim "vou morrer" depois me dou conta "eu nunca vou morrer" a hipótese me assusta, olho em volta, pousa um bicho inseto lindo e verde um besouro sobre a mesa, meu avô chamava de vaquinha, eu não entendia a etimologia

talvez por ser corpudo, lindo inseto

e morre e qual a evolução? ele com vida tão mais curta que a gente, mas aí há tanto tempo, há mais que eu, a menos que

eu também a minha espécie. mas penso "eu não pertenço". e tenho medo de viver pra sempre. eu vou morrer daqui a pouco, mais que o inseto, menos que o cachorro

nunca consigo ser cachorro.

a gente é o atraso da evolução.
dei errado

quarta-feira, 21 de março de 2012

deitava o rosto nas coxas da minha mãe e viajava os dedos pelos joelhos, canelas, ao redor das grossas pernas e pinicavam da depilação feita na lâmina, os pelos crescendo rudes, mas a tarde era mansa

segunda-feira, 19 de março de 2012

rosnando

amor é um cachorro
impiedoso como todos
matilha se desperto
no meio da noite sozinho
rosnam ao redor
do sono os cachorros
de muitas raças
amor é um canil
no centro da nossa vida
o vento lambe as
portas abertas
e os cães soltos te amam
às mordidas

sábado, 17 de março de 2012

a viúva do macaco

já que ninguém vinha, um galho, ela escalava: bidê, cadeira, escritório, de melancolia trepada em seu finado marido, o macaco. Quem olhasse, a filha não vinha, seus olhos molhados de mamífero vivo enxergante e desperto ~ o quanto de mim vivo é úmido ~ e o quanto do morto umedeço, te orno em cascas de banana, esfrego o fruto amarelo no teu rosto, meu amor primata, e choro selvagem, antes que me façam fazer piruetas

encontraram a mulher gutural na cozinha, sentada na fruteira e levaram-na pro ibama, que era macaca, juraram. Marido, meu homem, meu macaco, o corpo deixado rituais fúnebres dos primatas, sem enterro. O humano é o único animal que arquiva seus mortos. Por que eu falo de arquivo? me falta um rabo e galhos pra dependurar. Me falta um corpo coberto de pelos. me falta a ordem primária dos bichos: essa que só morre quando é hora.