sábado, 17 de março de 2012

se assusta o dia com o sol
dia é um dóberman treinado pra matar
ele dorme
quando amanhece estica as pernas
sono perigoso
no sonho ele estraçalha
e isso que espreguiça é o minuto do prazer sem raiva
depois o dia em todo lado
eu acordo pra não ter mais sossego
enxergo, ouço, como, devo
sufôco entre os músculos da manhã

sexta-feira, 16 de março de 2012

a hora que diz
chega encolhe um musgo
sob a pedra, protege
desse sol que junto
ao gelo dos olhos
queima o que eu não vejo:
uma estação do ano à toa, silente,
sufocada por um verão que fala
muito e não diz
nada,
morre na praia

as outras horas
param em volta em
assombro e bocejo daquela
irmã quase morta, escondida no
que já foi

tecemos fábulas pra anunciar em
meias palavras que a morte
olhe veja bem
não desista mas
ainda não foi desta vez

sábado, 3 de março de 2012

Dilermando

“Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha eu que não tinha que repartir com ninguém”.

(Clarice Lispector em carta às irmãs)

“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua. Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu — como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei, refletiu. Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente, pensou o homem com carinho. Lembro-me de ti quando eras pequeno, tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Eras todos os dias um cachorro que se podia abandonar”.

(trecho de "O crime do professor de matemática")

sexta-feira, 2 de março de 2012

amarra o tênis, sai na rua, a rua sai em mim, anda nos olhos: ônibus, polícia, os rostos que eu vejo são tão rápidos quanto o meu, no espelho, ninguém passa a vida na frente do espelho, a gente tenta, mas precisa andar sair em frente e olha pros outros,

meu rosto não é tudo o que eu tenho

então procuro: você, você, você, onde está? meus pés se arrastam me cansa olho pra baixo vejo areia invade as ruas do país, forma dunas cada vez mais altas, e eu preciso te encontrar. no tornozelo, na canela, as pessoas andam assustadas e desinteressadas de mim, como eu delas, só te procuro

para voltarmos para casa, o apartamento deve estar a salvo destas dunas. a areia entras pelos caminhos com um vento sem direção, vem de todo lado e traz talvez areias das praias de todo o continente, desde los angeles até mar del plata a sempre pesada terra nossa se dissolve e viaja, veio afogar são paulo

os ônibus param, carros cobertos. helicópteros fogem e quem não voamos nada a caminho de alguém, mas você não está

e nenhuma dessas pessoas me serve de você

as dunas são tão rápidas e eu não consigo, ninguém que eu veja: afundamos todos, mas não juntos. quem sabe se aqui embaixo, no escuro seco movediço, eu não te encontre...
as vontades se zangaram e partiram da cidade

deixando a sós comboios que não partem

trilhos e avenidas dizem "não me acorde"

e as pessoas escreviam "ai de nós" que

nem vontade temos mais de ter

vontades, as harpias do desejo

os cachorros então tomaram a república

e mijavam nas pernas de quem se levantasse

passou um período de grande sequia

no qual morreram milhos e galinhas

um dia veio a chuva e levou as coisas mortas

tinha muita coisa viva

era domingo minha mãe tinha me levado pra igreja

e na escola dominical cantávamos corinhos

quando um grito de pavor veio da rua e tomou deus

a cidade inteira socorreu e era no céu

inédita a tanto tempo que nem lembrávamos

contra o sol mal discerníamos a silhueta

de uma mulher-homem flutuando contra a gente

os seios pensos coxas úmidas distantes:

a vontade não pousava, e partiria?

os cachorros uivaram nesses dias