sexta-feira, 2 de março de 2012

as vontades se zangaram e partiram da cidade

deixando a sós comboios que não partem

trilhos e avenidas dizem "não me acorde"

e as pessoas escreviam "ai de nós" que

nem vontade temos mais de ter

vontades, as harpias do desejo

os cachorros então tomaram a república

e mijavam nas pernas de quem se levantasse

passou um período de grande sequia

no qual morreram milhos e galinhas

um dia veio a chuva e levou as coisas mortas

tinha muita coisa viva

era domingo minha mãe tinha me levado pra igreja

e na escola dominical cantávamos corinhos

quando um grito de pavor veio da rua e tomou deus

a cidade inteira socorreu e era no céu

inédita a tanto tempo que nem lembrávamos

contra o sol mal discerníamos a silhueta

de uma mulher-homem flutuando contra a gente

os seios pensos coxas úmidas distantes:

a vontade não pousava, e partiria?

os cachorros uivaram nesses dias

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