eu passo boa parte do dia doendo
à parte isso, distraio
em todo caso, tomo café, entro no facebook,
trabalho, tomo banho
o dia não dá pra tudo isso
mas o dia cabe nisso
e se eu transbordo ninguém tem nada que ver
fico quieto, faço mais café
faz um tempo que não tenho
o êxtase
de santa teresa arrebatada
que de não caber na tela vira
escultura e de não caber na escultura
voa
puxada pelos olhos
meus olhos mal me puxam
escrevo lamentando
se percebo, nem escrevo
essa geleia de tédio
espalhada pelos passos
o certo era seguir até encontrar
esquecido pela rotação da Terra
um ovo cru de dinossauro
chocá-lo
e dar à luz a vida morta
logo grande, predadora de elefantes
e de homens, arrancando cabeças com os dentes
acho que nesse dinossauro eu não chego
a cada busca mais longe do ovo
asas fósseis sobrevoam este trecho
sábado, 31 de março de 2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
um cachorro não se preocupa se vai viver pra sempre / até quando um cachorro vive / até o momento em que deixa de ser cachorro, sem saber que é cachorro, sem saber que é
eu não
eu penso assim "vou morrer" depois me dou conta "eu nunca vou morrer" a hipótese me assusta, olho em volta, pousa um bicho inseto lindo e verde um besouro sobre a mesa, meu avô chamava de vaquinha, eu não entendia a etimologia
talvez por ser corpudo, lindo inseto
e morre e qual a evolução? ele com vida tão mais curta que a gente, mas aí há tanto tempo, há mais que eu, a menos que
eu também a minha espécie. mas penso "eu não pertenço". e tenho medo de viver pra sempre. eu vou morrer daqui a pouco, mais que o inseto, menos que o cachorro
nunca consigo ser cachorro.
a gente é o atraso da evolução.
dei errado
eu não
eu penso assim "vou morrer" depois me dou conta "eu nunca vou morrer" a hipótese me assusta, olho em volta, pousa um bicho inseto lindo e verde um besouro sobre a mesa, meu avô chamava de vaquinha, eu não entendia a etimologia
talvez por ser corpudo, lindo inseto
e morre e qual a evolução? ele com vida tão mais curta que a gente, mas aí há tanto tempo, há mais que eu, a menos que
eu também a minha espécie. mas penso "eu não pertenço". e tenho medo de viver pra sempre. eu vou morrer daqui a pouco, mais que o inseto, menos que o cachorro
nunca consigo ser cachorro.
a gente é o atraso da evolução.
dei errado
quarta-feira, 21 de março de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
rosnando
amor é um cachorro
impiedoso como todos
matilha se desperto
no meio da noite sozinho
rosnam ao redor
do sono os cachorros
de muitas raças
amor é um canil
no centro da nossa vida
o vento lambe as
portas abertas
e os cães soltos te amam
às mordidas
impiedoso como todos
matilha se desperto
no meio da noite sozinho
rosnam ao redor
do sono os cachorros
de muitas raças
amor é um canil
no centro da nossa vida
o vento lambe as
portas abertas
e os cães soltos te amam
às mordidas
sábado, 17 de março de 2012
a viúva do macaco
já que ninguém vinha, um galho, ela escalava: bidê, cadeira, escritório, de melancolia trepada em seu finado marido, o macaco. Quem olhasse, a filha não vinha, seus olhos molhados de mamífero vivo enxergante e desperto ~ o quanto de mim vivo é úmido ~ e o quanto do morto umedeço, te orno em cascas de banana, esfrego o fruto amarelo no teu rosto, meu amor primata, e choro selvagem, antes que me façam fazer piruetas
encontraram a mulher gutural na cozinha, sentada na fruteira e levaram-na pro ibama, que era macaca, juraram. Marido, meu homem, meu macaco, o corpo deixado rituais fúnebres dos primatas, sem enterro. O humano é o único animal que arquiva seus mortos. Por que eu falo de arquivo? me falta um rabo e galhos pra dependurar. Me falta um corpo coberto de pelos. me falta a ordem primária dos bichos: essa que só morre quando é hora.
encontraram a mulher gutural na cozinha, sentada na fruteira e levaram-na pro ibama, que era macaca, juraram. Marido, meu homem, meu macaco, o corpo deixado rituais fúnebres dos primatas, sem enterro. O humano é o único animal que arquiva seus mortos. Por que eu falo de arquivo? me falta um rabo e galhos pra dependurar. Me falta um corpo coberto de pelos. me falta a ordem primária dos bichos: essa que só morre quando é hora.
se assusta o dia com o sol
dia é um dóberman treinado pra matar
ele dorme
quando amanhece estica as pernas
sono perigoso
no sonho ele estraçalha
e isso que espreguiça é o minuto do prazer sem raiva
depois o dia em todo lado
eu acordo pra não ter mais sossego
enxergo, ouço, como, devo
sufôco entre os músculos da manhã
dia é um dóberman treinado pra matar
ele dorme
quando amanhece estica as pernas
sono perigoso
no sonho ele estraçalha
e isso que espreguiça é o minuto do prazer sem raiva
depois o dia em todo lado
eu acordo pra não ter mais sossego
enxergo, ouço, como, devo
sufôco entre os músculos da manhã
sexta-feira, 16 de março de 2012
a hora que diz
chega encolhe um musgo
sob a pedra, protege
desse sol que junto
ao gelo dos olhos
queima o que eu não vejo:
uma estação do ano à toa, silente,
sufocada por um verão que fala
muito e não diz
nada,
morre na praia
as outras horas
param em volta em
assombro e bocejo daquela
irmã quase morta, escondida no
que já foi
tecemos fábulas pra anunciar em
meias palavras que a morte
olhe veja bem
não desista mas
ainda não foi desta vez
chega encolhe um musgo
sob a pedra, protege
desse sol que junto
ao gelo dos olhos
queima o que eu não vejo:
uma estação do ano à toa, silente,
sufocada por um verão que fala
muito e não diz
nada,
morre na praia
as outras horas
param em volta em
assombro e bocejo daquela
irmã quase morta, escondida no
que já foi
tecemos fábulas pra anunciar em
meias palavras que a morte
olhe veja bem
não desista mas
ainda não foi desta vez
sábado, 3 de março de 2012
Dilermando
“Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha eu que não tinha que repartir com ninguém”.
(Clarice Lispector em carta às irmãs)
“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua. Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu — como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei, refletiu. Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente, pensou o homem com carinho. Lembro-me de ti quando eras pequeno, tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Eras todos os dias um cachorro que se podia abandonar”.
(trecho de "O crime do professor de matemática")
(Clarice Lispector em carta às irmãs)
“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua. Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu — como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei, refletiu. Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente, pensou o homem com carinho. Lembro-me de ti quando eras pequeno, tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Eras todos os dias um cachorro que se podia abandonar”.
(trecho de "O crime do professor de matemática")
sexta-feira, 2 de março de 2012
amarra o tênis, sai na rua, a rua sai em mim, anda nos olhos: ônibus, polícia, os rostos que eu vejo são tão rápidos quanto o meu, no espelho, ninguém passa a vida na frente do espelho, a gente tenta, mas precisa andar sair em frente e olha pros outros,
meu rosto não é tudo o que eu tenho
então procuro: você, você, você, onde está? meus pés se arrastam me cansa olho pra baixo vejo areia invade as ruas do país, forma dunas cada vez mais altas, e eu preciso te encontrar. no tornozelo, na canela, as pessoas andam assustadas e desinteressadas de mim, como eu delas, só te procuro
para voltarmos para casa, o apartamento deve estar a salvo destas dunas. a areia entras pelos caminhos com um vento sem direção, vem de todo lado e traz talvez areias das praias de todo o continente, desde los angeles até mar del plata a sempre pesada terra nossa se dissolve e viaja, veio afogar são paulo
os ônibus param, carros cobertos. helicópteros fogem e quem não voamos nada a caminho de alguém, mas você não está
e nenhuma dessas pessoas me serve de você
as dunas são tão rápidas e eu não consigo, ninguém que eu veja: afundamos todos, mas não juntos. quem sabe se aqui embaixo, no escuro seco movediço, eu não te encontre...
meu rosto não é tudo o que eu tenho
então procuro: você, você, você, onde está? meus pés se arrastam me cansa olho pra baixo vejo areia invade as ruas do país, forma dunas cada vez mais altas, e eu preciso te encontrar. no tornozelo, na canela, as pessoas andam assustadas e desinteressadas de mim, como eu delas, só te procuro
para voltarmos para casa, o apartamento deve estar a salvo destas dunas. a areia entras pelos caminhos com um vento sem direção, vem de todo lado e traz talvez areias das praias de todo o continente, desde los angeles até mar del plata a sempre pesada terra nossa se dissolve e viaja, veio afogar são paulo
os ônibus param, carros cobertos. helicópteros fogem e quem não voamos nada a caminho de alguém, mas você não está
e nenhuma dessas pessoas me serve de você
as dunas são tão rápidas e eu não consigo, ninguém que eu veja: afundamos todos, mas não juntos. quem sabe se aqui embaixo, no escuro seco movediço, eu não te encontre...
as vontades se zangaram e partiram da cidade
deixando a sós comboios que não partem
trilhos e avenidas dizem "não me acorde"
e as pessoas escreviam "ai de nós" que
nem vontade temos mais de ter
vontades, as harpias do desejo
os cachorros então tomaram a república
e mijavam nas pernas de quem se levantasse
passou um período de grande sequia
no qual morreram milhos e galinhas
um dia veio a chuva e levou as coisas mortas
tinha muita coisa viva
era domingo minha mãe tinha me levado pra igreja
e na escola dominical cantávamos corinhos
quando um grito de pavor veio da rua e tomou deus
a cidade inteira socorreu e era no céu
inédita a tanto tempo que nem lembrávamos
contra o sol mal discerníamos a silhueta
de uma mulher-homem flutuando contra a gente
os seios pensos coxas úmidas distantes:
a vontade não pousava, e partiria?
os cachorros uivaram nesses dias
deixando a sós comboios que não partem
trilhos e avenidas dizem "não me acorde"
e as pessoas escreviam "ai de nós" que
nem vontade temos mais de ter
vontades, as harpias do desejo
os cachorros então tomaram a república
e mijavam nas pernas de quem se levantasse
passou um período de grande sequia
no qual morreram milhos e galinhas
um dia veio a chuva e levou as coisas mortas
tinha muita coisa viva
era domingo minha mãe tinha me levado pra igreja
e na escola dominical cantávamos corinhos
quando um grito de pavor veio da rua e tomou deus
a cidade inteira socorreu e era no céu
inédita a tanto tempo que nem lembrávamos
contra o sol mal discerníamos a silhueta
de uma mulher-homem flutuando contra a gente
os seios pensos coxas úmidas distantes:
a vontade não pousava, e partiria?
os cachorros uivaram nesses dias
Assinar:
Comentários (Atom)